Como prometido, alguns trechos do livro ISMAEL - UM ROMANCE SOBRE A CONDIÇÃO HUMANA. de Daniel Quinn
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"Lembrava-me de um tipo diferente de vida, que era, para quem a vivera, interessante e agradável. Em comparação, a vida que eu levava era torturantemente monótona, e nunca agradável. Portanto, a pergunta era uma tentativa de desvendar por que a vida tinha de ser dividida assim: metade interessante e agradável, metade monótona e desagradável."
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" — Baseando-se em minha história, que assunto diria que estou mais preparado para ensinar? Olhei-o sem entender e respondi que não sabia.
— Claro que sabe, Meu assunto é cativeiro.
— Cativeiro?
— Correto.
Fiquei quieto por um minuto, depois disse:
— Estou tentando imaginar o que isso tem a ver com salvar o mundo.
Ismael pensou um pouco.
— Dentre as pessoas de sua cultura, quais desejam destruir o mundo?
— Quais desejam destruir o mundo? Até onde eu saiba, ninguém especificamente deseja destruir o mundo.
— E no entanto o destroem, todos vocês. Cada um contribui diariamente para a destruição do mundo.
— Sim, é verdade.
— Por que não param?
Encolhi os ombros.
— Francamente, não sabemos como.
— São cativos de um sistema civilizacional que mais ou menos os compele a prosseguir destruindo o mundo para continuarem vivendo.
Sim, é o que parece.
— Anos atrás (você devia ser criança na época, talvez não se lembre), muitos jovens deste país tiveram a mesma impressão. Fizeram um esforço ingênuo e desorganizado de escapar do cativeiro, mas acabaram fracassando, porque não foram capazes de encontrar as grades da jaula. Se você não descobre o que o está prendendo, a vontade de sair logo se torna confusa e ineficaz.
— Sim, é essa a sensação que me causou — disse eu, e Ismael assentiu. — Mas, outra vez, como isso está relacionado com salvar o mundo?
— O mundo não sobreviverá por muito tempo no cativeiro da humanidade. Isso precisa de explicação?
— Não. Pelo menos, não para mim.
— Acho que existem muitos entre vocês que gostariam de libertar o mundo do cativeiro.
— Concordo.
O que os impede de fazê-lo?
— Não sei.
— Eis o que os impede: são incapazes de achar as grades da jaula."
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" — E ainda imagina que estão lhe contando uma mentira?
— Sim, mas não com tanta insistência.
— Não? E por quê?
— Porque descobri que, na prática, não faz diferença nenhuma. Se contam uma mentira para nós ou não, ainda temos de acordar e ir para o trabalho e pagar as contas e todo o resto. A não ser, é claro, que todos comecem a desconfiar de que lhes contaram uma mentira e todos descubram que mentira é essa.
— Como assim?
— Se só você descobrisse qual é a mentira, então provavelmente teria razão: não faria grande diferença. Mas, se todos descobrissem qual é a mentira, podemos presumir que faria uma grande diferença.
— É verdade. Então é essa a esperança que devemos ter."
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" As pessoas me acham um misantropo mal-humorado e respondo que devem ter razão. Discussões de qualquer tipo, sobre qualquer assunto, sempre me pareceram uma perda de tempo."
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" Alguns detestavam o que ele fazia, outros apenas iam levando como podiam e outros positivamente se beneficiavam com o regime. Mas eram todos cativos.
— Ontem você me disse que tem a impressão de ser um cativo. E isso porque sofre uma enorme pressão para ocupar um lugar, qualquer que seja, na história que sua cultura está encenando no mundo. Essa pressão é exercida de todas as maneiras, em todos os níveis, mas basicamente desta maneira: quem se recusar a ocupar um lugar na história, não será alimentado.
— A Mãe Cultura ensina que é assim que deve ser. Com exceção de poucos milhares de selvagens espalhados aqui e ali, todos os povos da Terra agora encenam essa história. É a história que o homem nasceu para encenar, e afastar-se dela é renunciar à própria raça humana, é se aventurar no nada. Seu lugar é aqui, participando dessa história, fazendo parte da engrenagem e,
como recompensa, sendo alimentado. Não há “outra coisa”. Sair dessa história é sair dos limites do mundo. Não há saída, a não ser a morte."
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" Terceira definição: cultura. A cultura de um povo é sua encenação de uma história.
— Sua encenação de uma história... E disse que uma história é...
— Um roteiro que inter-relaciona o homem, o mundo e os deuses.
— Muito bem. Então está dizendo que as pessoas da minha cultura estão encenando sua própria história sobre o homem, o mundo e os deuses.
— Isso mesmo. Mas ainda não sei que história é essa."
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" Por que ninguém se alarma? Ouço as pessoas falarem sobre o fim do mundo na lavanderia, e parecem tão alarmadas como se estivessem comparando marcas de detergentes. Falam da destruição da camada de ozônio e da destruição total da vida. Falam da devastação das florestas tropicais, da poluição mortal que durará milhares e milhares de anos, da extinção de dezenas de espécies todos os dias; do fim da própria noção de espécie. E parecem completamente calmas”.
— Eu lhe disse: “É isso que deseja saber, então: por que as pessoas não se alarmam com a destruição do mundo?” Ela pensou um pouco e respondeu: “Não, eu sei por que não se alarmam. Não se alarmam porque acreditam no que lhes contaram”.
— O quê? — perguntei.
— O que contaram às pessoas que as impede de se alarmarem, que as mantém relativamente calmas enquanto assistem aos danos catastróficos que estão infligindo ao planeta?
— Não sei.
— Contaram-lhes uma história explicativa. Receberam uma explicação de como as coisas vieram a ser como são e isso silenciou seus temores. Essa explicação abrange tudo, inclusive a deterioração da camada de ozônio, a poluição dos oceanos, a destruição das florestas tropicais e até a extinção humana. E isso as satisfaz. Ou talvez seja mais correto dizer que as apazigua. Participam da engrenagem durante o dia, narcotizam-se com drogas ou com televisão à noite e tentam não pensar com muita seriedade no assunto que estão deixando para seus filhos enfrentarem."
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" Por isso, somente a Terra é suficiente, é o berço e o lar do homem, esta é sua finalidade. Os Pegadores vêem o mundo como um tipo de sistema de conservação humana, uma máquina criada para produzir e sustentar a vida humana.
— Obviamente, se todo o universo foi criado para que o homem fosse criado, este deve ser uma criatura de enorme importância para os deuses. Mas essa parte da história não dá nenhuma indicação das intenções divinas para com ele. Devem ter lhe reservado algum destino especial, mas que não é revelado nessa primeira parte.
— Claro que não. O mundo foi feito para o homem.
— Isso mesmo.
— Todos em sua cultura sabem disso, não é? Mesmo os ateus que juram não haver deuses, sabem que o mundo foi feito para o homem.
— Diria que sim.
— Muito bem, essa é a premissa de sua história: O mundo foi feito para o homem.
— Não consigo entender por que isso é uma premissa.
— As pessoas de sua cultura fizeram disso uma premissa, entenderam como uma premissa. Disseram: E se o mundo foi feito para nós?
— Pense nas conseqüências de ter isso como premissa. Se o mundo foi feito para vocês, então...
— Certo, estou entendendo. Se o mundo foi feito para nós, então ele pertence a nós, e podemos fazer com ele o que bem quisermos.
— É isso: sem o homem, o mundo estaria inacabado, seria apenas natureza, de garras e dentes ensangüentados. Seria o caos, um estado de anarquia primeva.
— Sim, exatamente.
— Então, do que o mundo precisava?
— Precisava que alguém chegasse e endireitasse as coisas. De alguém que trouxesse ordem.
— E que tipo de pessoa endireita as coisas? Que tipo de pessoa controla a anarquia e traz ordem?
— Bom... um governante, um rei. É claro. O mundo precisava de um governante. Precisava do homem.
— O mundo desafiava o homem. O que ele construía, o vento e a chuva derrubavam. Os campos que ele limpava para suas plantações e vilas, a selva reclamava de volta. As sementes que plantava, os pássaros levavam. Os brotos que cultivava, os insetos corroíam. A colheita que armazenava, os ratos saqueavam. Os animais que criava e alimentava, os lobos roubavam. As montanhas, os rios e os oceanos mantinham-se onde estavam, não abrindo caminho para ele. O terremoto, a enchente, o furacão, a nevada e a seca não desapareciam sob seu comando.
— É verdade.
— Se o mundo não se submetia docilmente ao seu governo, o que o homem precisava fazer?
— Como assim?
— Se o rei chega a uma cidade que não se submete a seu governo, o que ele precisa fazer?
— Precisa conquistá-la.
— É claro. Para se tornar o governante do mundo, o homem antes precisou conquistá-lo.
Santo Deus! — exclamei, Do ponto de vista dos Pegadores, tudo isso é apenas o preço de se tornar humano.
— Como assim?
— Não era possível tornar-se plenamente humano vivendo ao lado dos dragões sobre o lodo, era?
— Não.
— Para se tornar plenamente humano, o homem teve de se erguer do lodo. E tudo isso é o resultado. Na visão dos Pegadores, os deuses deram ao homem a mesma escolha que deram a Aquiles: uma vida breve de glória ou uma vida longa e monótona na obscuridade. E os Pegadores escolheram uma vida breve de glória."
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" O problema é que a conquista do mundo pelo homem causou a devastação do mundo. E, apesar de todo o controle que obtivemos, não temos controle o bastante para parar de devastar o mundo ou para remediar a devastação que já causamos. Despejamos nossos venenos no mundo como se ele fosse um poço sem fundo, e continuamos a despejar nossos venenos no mundo. Devoramos recursos insubstituíveis como se nunca fossem terminar, e continuamos a devorá-los. É difícil imaginar como o mundo poderá sobreviver a outro século desse abuso, mas ninguém está realmente fazendo algo a respeito. É um problema que nossos filhos terão de resolver, ou os filhos deles. “ Somente uma coisa pode nos salvar”, continuei. “Temos de aumentar nosso domínio sobre o mundo. Todo esse estrago foi causado por nossa conquista do mundo, mas temos de continuar a conquistá-lo até que nosso governo seja absoluto. Então, quando nosso controle for completo, tudo ficará bem. Teremos poder de fusão. Não haverá mais poluição. Ligaremos e desligaremos a chuva. Plantaremos um alqueire de trigo num centímetro quadrado. Transformaremos os oceanos em fazendas. Controlaremos o clima, e não haverá mais furacões, tornados, secas e geadas inoportunas. Faremos as nuvens soltarem sua água sobre a terra em vez de despejá-la inutilmente no oceano. Todos os processos vitais deste planeta estarão em seu lugar, onde os deuses querem que estejam: em nossas mãos. Entraremos na era de Jornada nas estrelas. O homem se lançará no espaço para conquistar e governar todo o universo. E este pode ser seu destino último: conquistar e governar todo o universo. Que ser maravilhoso é o homem!”.
Todos em sua cultura sabem disso. O homem nasceu para transformar o mundo num paraíso, mas tragicamente, nasceu imperfeito. E por isso seu paraíso sempre foi corrompido pela estupidez, ganância, destruição e imprudência.
— Sabem dividir átomos, mandar exploradores à Lua, manipular genes, mas
não sabem como as pessoas devem viver.
— Isso mesmo.
— Porque isso? O que a Mãe Cultura tem a dizer?
— Ah! — exclamei, fechando os olhos. Após um minuto, continuei: — A Mãe Cultura diz que é possível ter um conhecimento exato de coisas como átomos, viagens espaciais e genes, mas não há como ter um conhecimento exato de como as pessoas devem viver.
— Sabemos duas coisas muito importantes sobre as pessoas — disse Ismael. — Pelo menos segundo a mitologia dos Pegadores. Primeiro, há algo fundamentalmente errado com elas e, segundo, não têm nenhum conhecimento exato de como devem viver. E nunca terão. Parece que deve haver uma ligação entre essas duas coisas.
— Sim. Se as pessoas soubessem como viver, poderiam solucionar o que está errado com a natureza humana. Quero dizer, saber como viver precisaria incluir saber como viver como seres imperfeitos. Se não incluísse, não seria a verdadeira descoberta. Entende o que estou dizendo?
— Acho que sim. Na verdade, está dizendo que, se soubessem como devem viver, a falha humana poderia ser controlada. Se soubessem como devem viver, não estariam sempre estragando o mundo. Talvez as duas coisas sejam na verdade uma. Talvez a falha humana seja exatamente esta: não saber como viver.
Sim, é algo a se pensar.
De qualquer modo, esse muro é um axioma que declara que o conhecimento exato sobre como as
pessoas devem viver é inalcançável. Rejeito esse axioma e pulo o muro. Não precisamos de profetas para nos dizer como viver; podemos descobrir sozinhos consultando o que de fato se observa no mundo. Como se chama isso? Uma frase que descreve o que sempre acontece quando certas condições são satisfeitas?
— Uma lei.
— Claro. Os primeiros aeronautas tiveram que ir por tentativa e erro porque não conheciam as leis da aerodinâmica. Nem sequer sabiam que havia leis. As pessoas de sua cultura estão na mesma situação quando se trata de aprender como devem viver. Precisam ir por tentativa e erro, porque não conhecem as leis relevantes, e nem sequer sabem que existem leis.
— E concordo com isso — disse eu.
— Tem certeza de que não se podem encontrar leis sobre como as pessoas devem viver?
— Isso mesmo. Obviamente, existem leis inventadas, como a lei contra o uso de drogas, mas podem ser mudadas pelo voto. Não se pode mudar as leis da aerodinâmica pelo voto, e não há leis semelhantes sobre como devemos viver."
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Continuo com os trechos no próximo post. Tem bastante coisa. Mas creio que estes acima já trazem uma boa idéia do livro, já há uma premissa.
Por favor, se por acaso vens até este blog marque sua passagem, deixei um 'oi' ou qualquer coisa do gênero. É bom saber que não se está escrevendo pras paredes.
Até mais.